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Este artigo aborda o que historicamente foi denominado frigidezFrigidez Termo histórico e popular, atualmente considerado pejorativo e clinicamente impreciso, que era utilizado para descrever a ausência de desejo sexual ou a incapacidade de atingir o orgasmo em mulheres. Na medicina moderna, foi substituído por diagnósticos específicos de disfunção., um termo que caiu em desuso nos manuais diagnósticos modernos devido à sua carga pejorativa e imprecisão clínica. Atualmente, a ciência compreende essa condição sob a ótica das disfunções sexuais, especificamente relacionadas ao desejo e à excitação.

O termo frigidez foi amplamente utilizado no passado para descrever a ausência de resposta sexual ou desejo em mulheres. No entanto, a medicina e a psicologiaPsicologia Estudo científico da mente e do comportamento humano, focando em processos mentais, emoções e interações sociais. evoluíram para uma compreensão mais matizadaMatizada Refere-se a uma compreensão ou análise que não é simplista, mas que leva em conta diversas variações, tons e complexidades biopsicossociais que compõem a resposta sexual humana., reconhecendo que a sexualidade humanaSexualidade Humana Conjunto de fenômenos biológicos, psicológicos e socioculturais relacionados ao prazer, à reprodução, à identidade de gênero e à orientação sexual, abrangendo muito mais do que apenas o ato coital. é influenciada por fatores biológicos, psicológicos e sociais. Hoje, as terminologias técnicasTerminologias técnicas Conjunto de termos específicos e padronizados utilizados por profissionais de saúde para garantir precisão diagnóstica e evitar estigmas sociais durante o tratamento clínico. buscam descrever o fenômeno sem estigmatizar o indivíduo, focando na funcionalidade e no sofrimento subjetivo causado pela condição.

No DSM-5 (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais), a antiga frigidez é classificada principalmente como Transtorno do Interesse/Excitação Sexual Feminino. Esta mudança unificou os diagnósticos de baixo desejo e dificuldades de excitação física, entendendo que em mulheres esses processos costumam ocorrer de forma simultânea. Para o diagnóstico, é necessário que os sintomasSintomas Sensações e percepções relatadas pelo indivíduo que expressam o seu sofrimento interno, mas que não podem ser medidas diretamente pelo observador. ex: Medo persistam por pelo menos seis meses e causem sofrimento clinicamente significativo.

Já na CID-11 (Classificação Internacional de Doenças), elaborada pela Organização Mundial da SaúdeOrganização Mundial da Saúde A Organização Mundial da Saúde é a autoridade internacional responsável por direcionar e coordenar a saúde global dentro do sistema das Nações Unidas, sendo a instituição que estabelece padrões globais de saúde e publica a Classificação Internacional de Doenças, que inclui os critérios para o diagnóstico de transtornos mentais., a condição é descrita como Transtorno de Baixo Desejo SexualBaixo desejo sexual Condição clínica caracterizada pela deficiência ou ausência persistente de fantasias sexuais e de vontade para a atividade sexual, sendo o motivo mais frequente de consulta em terapia sexual. ou Disfunção da Excitação Sexual FemininaExcitação sexual feminina Fase do ciclo de resposta sexual caracterizada por alterações fisiológicas como a lubrificação vaginal, o intumescimento dos tecidos genitais e o aumento da frequência cardíaca em resposta a estímulos eróticos.. A CID-11 traz uma inovação importante ao mover as disfunções sexuais para um capítulo específico de saúde sexualSaúde Sexual Estado de bem-estar físico, emocional, mental e social em relação à sexualidade; não é apenas a ausência de doença., retirando-as da categoria exclusiva de transtornos mentais, o que ajuda a reduzir o preconceito associado ao tratamento.

O diagnóstico clínico é rigoroso e exige a presença de pelo menos três de seis critérios específicos relacionados à redução ou ausência de indicadores de interesse sexual. Estes incluem a falta de interesse pela atividade sexual, a ausência de pensamentos ou fantasias eróticasFantasias eróticas Produções mentais de teor sexual que podem ocorrer de forma espontânea ou deliberada, atuando como potentes mediadores da excitação e indicadores de saúde no interesse sexual., a redução da iniciativa para o sexo e a falta de receptividade às tentativas do parceiro. Além disso, observa-se a ausência de prazer ou excitação durante a atividade sexual em quase todos os encontros, bem como a falta de resposta a estímulos sexuais escritos, verbais ou visuais.

Os sintomas também se manifestam fisicamente, como a redução das sensações genitais ou extragenitais durante o ato sexual. É fundamental que o profissional descarte causas que não sejam inerentes à disfunção, como o uso de substâncias, efeitos colaterais de medicamentos (como antidepressivosAntidepressivos Medicamentos que regulam neurotransmissores no cérebro. No pânico, são usados para estabilizar o humor e reduzir a sensibilidade do sistema de resposta ao estresse.) ou conflitos graves de relacionamento, que poderiam explicar a falta de desejo de forma contextual e não patológica.

As disfunções de desejo e excitação são as queixas sexuais mais comuns entre o público feminino. Estudos indicam que a prevalência pode variar significativamente, mas estima-se que entre 10% e 40% das mulheres em todo o mundo experimentem algum grau de redução no interesse sexual ao longo da vida. Essa variação ocorre porque a libidoLibido Termo que define a energia proveniente das pulsões de vida; popularmente conhecido como o "impulso" ou "desejo" sexual. é influenciada por fases da vida, como o pós-parto, a menopausaMenopausa Evento biológico marcado pela interrupção permanente dos ciclos menstruais devido à queda na produção de estrogênio, o que pode impactar diretamente a libido e a lubrificação vaginal. e períodos de alto estresse profissional ou pessoal. Mulheres em idade reprodutiva tendem a apresentar causas mais ligadas ao psicológico e ao estresse, enquanto em mulheres mais velhas, as alterações hormonais ganham maior peso na estatística.

O tratamento atual é predominantemente multidisciplinar. Na esfera farmacológica, podem ser utilizados moduladores hormonais, especialmente se houver deficiências comprovadas em exames laboratoriais, ou medicamentos específicos que atuam nos neurotransmissoresNeurotransmissores Moléculas que transmitem sinais entre os neurônios, como a serotonina e dopamina, essenciais para a regulação do humor e prazer, estimuladas pelo exercício. responsáveis pelo desejo no sistema nervoso central. No entanto, a intervenção médica isolada raramente é suficiente para casos complexos.

A psicoterapiaPsicoterapia Tratamento baseado na fala e em técnicas psicológicas para abordar questões emocionais, mentais e comportamentais., especialmente a terapia sexual baseada na abordagem cognitivo-comportamental, é considerada o padrão-ouro. Ela trabalha na desconstrução de crenças limitantes sobre o corpo e o prazer, na melhoria da comunicação entre parceiros e na redução da ansiedade de desempenhoAnsiedade de desempenho Estado de apreensão relacionado à capacidade de realizar uma tarefa, no contexto sexual, refere-se ao medo de não manter a ereção.. Exercícios de foco sensorialFoco Sensorial O Foco Sensorial é uma técnica terapêutica desenvolvida originalmente por Masters e Johnson na sexologia clínica. Consiste em uma série de exercícios estruturados onde o casal se toca mutuamente com o objetivo exclusivo de explorar sensações táteis, sem a pressão de atingir a excitação ou o orgasmo, e inicialmente sem o toque nas genitais. O objetivo é reduzir a ansiedade de desempenho, melhorar a comunicação e ajudar o indivíduo a se reconectar com as sensações do corpo no momento presente, tirando o foco da "meta" e colocando-o no prazer do toque. também são frequentemente prescritos para ajudar a paciente a se reconectar com as sensações corporais sem a pressão da performance.

O cuidado com a saúde sexual exige a colaboração de diversos especialistas. O ginecologista atua na avaliação física e hormonal; o psicólogo ou terapeuta sexualTerapeuta Sexual Profissional da saúde (geralmente psicólogo ou médico) especializado no tratamento de disfunções, inadequações e questões relacionadas à sexualidade humana. (Sexólogo clínico) foca nos aspectos emocionais e comportamentais; e, em alguns casos, o psiquiatra intervém quando há comorbidades como depressãoDepressão Transtorno mental comum, mas grave, caracterizado por uma tristeza persistente e uma perda de interesse em atividades que antes eram prazerosas. Diferente de uma tristeza passageira, a depressão afeta a forma como a pessoa sente, pensa e lida com atividades diárias, como dormir, comer ou trabalhar. ou ansiedade. Fisioterapeutas pélvicosFisioterapeutas Pélvicos Profissionais de saúde que utilizam técnicas manuais e biofeedback para tratar disfunções dos músculos do assoalho pélvico, auxiliando na melhora da circulação local e da sensibilidade genital. também podem ser envolvidos para tratar questões de sensibilidade e tônus muscular.

O prognóstico para o tratamento das disfunções de desejo e excitação é geralmente positivo, especialmente quando a paciente está engajada e conta com o apoio do parceiro ou parceira. A melhora costuma ser gradual, mas significativa, resultando em uma maior qualidade de vidaQualidade de Vida Conceito que envolve o bem-estar físico, psicológico, o nível de independência e as relações sociais. e satisfação pessoal. A chave para o sucesso terapêutico reside na identificação precisa da origem da disfunção, seja ela predominantemente biológica ou psicossocial.

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