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O Fenômeno da Misoginia: Uma Análise Interdisciplinar entre a Sociologia e a Saúde MentalSaúde Mental Mais do que a ausência de transtornos, é a capacidade de viver a vida de forma plena e lidar com os seus desafios.

Diferente de um incidente isolado de discriminação, a misoginia manifesta-se como um sistema de crenças que sustenta a superioridadeSuperioridade Atitude ou convicção interna de que se possui qualidades, status ou habilidades acima da média das outras pessoas, justificando um tratamento preferencial. masculina e impõe punições sociais àquelas que desafiam as normas patriarcais. Sob a lente da sociologia, é entendida como a “polícia” do patriarcado, enquanto na psicologiaPsicologia Estudo científico da mente e do comportamento humano, focando em processos mentais, emoções e interações sociais. clínica, sua expressão pode estar associada a traços de personalidade e padrões comportamentais disfuncionais que impactam severamente a saúde mental individual e coletiva.

É fundamental esclarecer, sob o rigor da psiquiatria contemporânea, que a misoginia não é classificada como uma patologia isolada ou um transtornoTranstorno Conjunto de sinais e sintomas clinicamente significativos que afetam a cognição e o comportamento, gerando sofrimento pessoal e prejuízo funcional. Ex. Transtorno do Pânico. mental específico nos manuais diagnósticos. Portanto, não existe um código exclusivo para “misoginia” nem no DSM-5-TRDSM-5-TR Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (5ª Edição, Texto Revisado), a principal referência para diagnósticos psiquiátricos da Associação Americana de Psiquiatria. (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais) nem na CID-11 (Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde). Todavia, comportamentos misóginos são frequentemente arrolados como sintomasSintomas Sensações e percepções relatadas pelo indivíduo que expressam o seu sofrimento interno, mas que não podem ser medidas diretamente pelo observador. ex: Medo ou características de suporte em diagnósticos de Transtorno da Personalidade AntissocialTranstorno da Personalidade Antissocial Padrão de desrespeito e violação dos direitos dos outros, frequentemente associado a comportamentos misóginos agressivos. (F60.2 na CID-11 / 301.7 no DSM-5) ou Transtorno da Personalidade NarcisistaNarcisista Termo utilizado para descrever quem exibe um padrão de falta de empatia, necessidade de admiração e crença de que é superior aos demais.. Nestes casos, a aversão ao feminino surge como uma faceta da falta de empatiaEmpatia Capacidade psicológica de se identificar com outra pessoa, sentindo o que ela sente ou compreendendo sua perspectiva de mundo sem necessariamente vivenciar a mesma situação., necessidade de controle ou desprezo por normas sociais e direitos alheios.

Ainda que não seja uma doença, a identificação de traços misóginos no ambiente clínico baseia-se na observação de padrões de interação e esquemas cognitivos. Os critérios de avaliação envolvem a presença de um padrão pervasivoPervasivo Termo técnico utilizado na psicopatologia para descrever um sintoma ou característica que se infiltra em todas as áreas da vida do indivíduo (pessoal, profissional, social), não sendo limitado a um evento ou relacionamento isolado. de hostilidade direcionado a mulheres, que se manifesta através de comportamentos como o gaslighting (manipulação psicológica para invalidar a percepção da vítima), o isolamento social imposto à parceira e a objetificação sexual sistêmica. O profissional deve observar se há uma rigidez cognitiva onde a figura feminina é invariavelmente colocada em posição de inferioridade ou ameaça, resultando em condutas agressivas, verbais ou físicas, que visam a manutenção de uma hierarquia de poder.

Determinar a prevalência exata da misoginia é um desafio complexo, dado que ela é uma variável cultural e psicológica. Contudo, estudos em sociologia e criminologia indicam que a misoginia atinge predominantemente o público masculino, embora possa ser internalizada por mulheres (misoginia internalizada). Dados sobre violência de gênero e feminicídioFeminicídio Assassinato de uma mulher por razões da condição de sexo feminino, envolvendo violência doméstica ou menosprezo à condição de mulher., frequentemente alimentados por ideologias misóginas, mostram índices alarmantes em diversas culturas, evidenciando que a prevalência deste comportamento está intrinsecamenteIntrinsecamente Termo que indica que uma característica faz parte da essência ou da natureza fundamental de algo. Na análise clínica, refere-se a comportamentos que estão fundidos à estrutura de crenças do sujeito. ligada ao nível de desigualdade estrutural de uma sociedade e ao acesso a discursos de ódio em ambientes digitais, como a “manosfera”.

O tratamento para indivíduos que apresentam padrões misóginos prejudiciais foca na reestruturação cognitivaReestruturação Cognitiva Técnica da TCC que visa identificar e alterar padrões de pensamento disfuncionais ou irracionais. e no desenvolvimento de competências socioemocionaisSocioemocionais Conjunto de habilidades ligadas à capacidade de uma pessoa em gerenciar emoções, estabelecer relações empáticas e resolver conflitos de forma saudável e ética.. A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) é amplamente utilizada para identificar e desafiar as crenças nucleares de superioridade e os esquemas de hostilidade. Em casos onde a misoginia está atrelada a transtornos de personalidade, a Terapia do EsquemaTerapia do Esquema Integração terapêutica que foca em padrões emocionais e cognitivos autodestrutivos (esquemas iniciais desadaptativos) formados na infância e reforçados ao longo da vida. ou a Terapia Dialética ComportamentalTerapia Dialética Comportamental Tipo de terapia cognitivo-comportamental focada em ensinar habilidades de regulação emocional, tolerância ao estresse e eficácia interpessoal. (DBT) podem ser eficazes para trabalhar a regulação emocionalRegulação Emocional  Processo pelo qual os indivíduos influenciam quais emoções têm, quando as têm e como as vivenciam e expressam. e a empatia. O foco reside em humanizar a figura feminina e desconstruir preconceitos aprendidos durante o desenvolvimento psicossocial.

Não existem fármacos específicos para “curar” o preconceito ou a misoginia. Entretanto, a farmacologia entra como suporte quando a hostilidade misógina está associada a transtornos de humor ou de controle de impulsos. Inibidores Seletivos de Recaptação de SerotoninaSerotonina Neurotransmissor que desempenha um papel crucial na regulação do humor, sono, apetite e nos níveis de ansiedade. (ISRS) podem ser prescritos para manejar a irritabilidade e a impulsividade agressiva. Estabilizadores de humorEstabilizadores de Humor Classe de medicamentos, como o lítio ou o valproato, utilizados para nivelar oscilações emocionais e reduzir comportamentos impulsivos. ou antipsicóticosAntipsicóticos Medicamentos que atuam no sistema nervoso central para controlar sintomas como agressividade extrema, impulsividade ou pensamentos desorganizados. em baixas dosagens também podem ser considerados por psiquiatras se houver um componente psicótico ou um transtorno de personalidadeTranstorno de Personalidade Padrão persistente de experiência interna e comportamento que se desvia acentuadamente das expectativas da cultura do indivíduo, sendo rígido e invasivo ao longo do tempo. grave que coloque terceiros em risco, visando a estabilização do paciente para que a psicoterapiaPsicoterapia Tratamento baseado na fala e em técnicas psicológicas para abordar questões emocionais, mentais e comportamentais. possa surtir efeito.

O manejo da misoginia, especialmente quando evolui para casos de violência, exige uma equipe multidisciplinar. O psicólogo atua na desconstrução dos padrões de pensamentoPadrões de Pensamento Formas repetitivas de processar a realidade que podem ser saudáveis ou disfuncionais (como as crenças limitantes).; o psiquiatra avalia a necessidade de intervenção biológica; e o assistente social ou sociólogo pode atuar na reeducação em grupos de reflexãoReflexão Ato de pensar profundamente sobre as próprias escolhas e sentimentos, incentivado nos artigos como motor de mudança. para homens. O prognóstico depende diretamente da egossintonia do indivíduo; se ele percebe seu comportamento como um problema (egodistônico), as chances de mudança são favoráveis. No entanto, em casos de transtornos de personalidade graves onde há falta de remorso, o prognóstico para a cessação total da misoginia tende a ser reservado.

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