Aplicação de mecânicas e dinâmicas de jogos em contextos que não são de lazer, como educação ou trabalho, para engajar pessoas e resolver problemas. Quando a Noite não Acolhe: A conexão clínica entre a insôniainsônia Distúrbio persistente do sono caracterizado pela dificuldade para adormecer, para manter o sono contínuo ou pelo despertar precoce. e a Saúde MentalSaúde Mental Mais do que a ausência de transtornos, é a capacidade de viver a vida de forma plena e lidar com os seus desafios.

Como a insônia afeta a saúde mental e a urgência de um olhar clínico que vai além dos remédios para dormir.
Para muita gente, o silêncio da madrugada é aterrorizante. Não por causa de perigos externos, mas pelo confronto inevitável com o próprio barulho interno. A insônia, longe de ser um mero inconveniente, arranca do indivíduo a sua capacidade mais básica de recomposição. Em minha experiência clínica, raramente alguém descreve o problema em termos de ritmo circadianocircadiano Relativo ao período de aproximadamente 24 horas sobre o qual se baseia o ciclo biológico de quase todos os seres vivos (ritmo circadiano). desregulado. O relato é sempre de exaustão, da sensação de que a cabeça vai explodir de tanto pensar. É um isolamento profundo. Afinal, a cidade inteira dorme e o sujeito, acordado, monitora obsessivamente os ponteiros do relógio, fazendo cálculos desesperados de quantas horas lhe restam até o despertador tocar.
Historicamente, o nosso organismo estava sintonizado ao sol. Dormíamos com a escuridão e acordávamos com a luz. A biologia ditava a culturaCultura
Conjunto de valores, conhecimentos, costumes, crenças, práticas e significados compartilhados e transmitidos em uma sociedade ou grupo.
. Hoje, inverteu-se o jogo, a cultura massacra a biologia.
A privação crônica e a fragmentação do sono podem favorecer alterações inflamatórias e desregulações dos sistemas envolvidos na resposta ao estresse. Em alguns indivíduos com insônia, também são observadas alterações na atividade do eixo relacionado ao cortisolCortisol Substância produzida pelas glândulas suprarrenais que, em níveis elevados e crônicos devido ao sedentarismo e estresse, pode prejudicar o sistema imunológico e a saúde mental. e ao estado de hiperalerta. E é aí que a insônia e saúde mental se tornam indissociáveis. A angústia vivida de dia rouba o repouso da noite; e a noite fragmentada devolve à pessoa uma manhã sem defesas, um cérebro incapaz de filtrar estímulos, de lidar com frustrações ou de processar as complexidades das relações humanas.
A cronologiacronologia Ciência ou ordenação que determina a sucessão de acontecimentos no tempo, estabelecendo datas e sequências históricas precisas. da insônia

A forma como a ciência olha para as madrugadas de insônia mudou drasticamente ao longo dos séculos. O que antes era visto quase como uma fraqueza de caráterCaráter Conjunto relativamente estável de disposições, valores e maneiras de agir que participa da forma como uma pessoa responde às situações da vida, especialmente quando precisa fazer escolhas. ou um capricho, hoje é lido na materialidade das ondas cerebrais.
O Sintoma da Histeria e MelancoliaMelancolia
Termo histórico utilizado durante séculos para descrever diferentes estados de tristeza profunda e sofrimento psíquico. Seu significado mudou ao longo do tempo e não corresponde exatamente ao conceito contemporâneo de depressão.
– Séculos XVIII e XIX
Não existia o diagnóstico de insônia. O quadro era catalogado nos grandes asilos como um sintoma secundário de quadros vagos como “histeria” ou “neurastenianeurastenia Termo histórico da psicopatologia para descrever uma condição de fadiga crônica, irritabilidade e fraqueza física, frequentemente associada ao esgotamento mental e ao estresse.”. Os tratamentos consistiam basicamente em repressão física ou no uso de extratos sedativos pesados.
A Revolução da Polissonografiapolissonografia Exame detalhado que monitora as funções do organismo durante o sono (como atividade cerebral, respiração e batimentos cardíacos) para diagnosticar distúrbios. – Anos 1950
A descoberta do sono REMsono REM Fase profunda do sono (sigla para Rapid Eye Movement ou Movimento Rápido dos Olhos) onde ocorrem os sonhos mais intensos e a consolidação da memória. muda tudo. Os cientistas começam a monitorar a atividade elétrica cerebral, comprovando que o cérebro não se desliga à noite — ele opera uma intensa e complexa sinfonia de reparação neural. O sono deixa de ser visto como passividade.
A Estruturação do Sofrimento – 1987
Surge o modelo explicativo dos 3P (Predisponentes, Precipitantes e Perpetuadores) criado por Arthur SpielmanArthur Spielman Pesquisador e cientista do sono conhecido por criar o modelo dos "3 Ps" da insônia, que explica os fatores predisponentes, precipitantes e perpetuadores do distúrbio.. A clínica passa a entender o motivo exato pelo qual alguém sofre um baque (lutoLuto Reação emocional natural e esperada diante da perda definitiva de algo ou alguém com quem se tinha um vínculo afetivo significativo, envolvendo fases de adaptação., desemprego), perde o sono temporariamente e, mesmo meses após o trauma passar, a insônia permanece cronificada.
A Independência Clínica – 2013 em diante
O DSM-5 estabelece, de forma definitiva, que o TranstornoTranstorno Conjunto de sinais e sintomas clinicamente significativos que afetam a cognição e o comportamento, gerando sofrimento pessoal e prejuízo funcional. Ex. Transtorno do Pânico. de Insônia existe de forma autônoma. Ele precisa ser tratado com dignidade própria, exigindo intervenções específicas, e não apenas ser tratado como um apêndice da depressãoDepressão Transtorno mental comum, mas grave, caracterizado por uma tristeza persistente e uma perda de interesse em atividades que antes eram prazerosas. Diferente de uma tristeza passageira, a depressão afeta a forma como a pessoa sente, pensa e lida com atividades diárias, como dormir, comer ou trabalhar. ou da ansiedade.

Insônia: avanços e desafios
O grande salto na nossa compreensão da insônia foi a constatação de que o cérebro insone está condicionado a sofrer. Esse é o pilar da neurocognição contemporânea do sono. A cama, que deveria promover uma resposta vagal de relaxamento imediato, torna-se uma arena. O sujeito deita, e o quarto dispara gatilhos de hiperalerta. Em alguns pacientes pode haver discrepância entre a percepção subjetiva do sono e medidas objetivas obtidas por métodos de monitoramento, fenômeno que merece consideração na avaliação clínica.
Os desafios, contudo, são gigantescos.
Talvez o maior entrave seja a nossa cultura imediatista. As pessoas anseiam por um botão de “desliga” químico. Medicamentos hipnóticos podem ter indicação clínica em situações específicas, mas não substituem necessariamente o tratamento dos fatores comportamentais e cognitivos que mantêm a insônia crônica. O uso prolongado de determinados fármacos exige acompanhamento médico devido a riscos como tolerância, dependência, alterações cognitivas e efeitos sobre a arquitetura do sono. Mudar a crença de que a medicação resolve o problema sozinha e convencer o paciente a realizar reestruturações comportamentais dolorosas, como restringir o tempo deitado e levantar de madrugada quando não há sono, exige um esforço terapêutico imenso.
A insônia sob a perspectiva sociológica

Não adoecemos isolados em redomas de vidro. As dinâmicas de poder e as demandasdemandas Conjunto de exigências, solicitações ou pressões (internas ou externas) às quais um indivíduo precisa responder ou se adaptar. da sociedade do cansaço também atravessam o nosso quarto de dormir. Jonathan CraryJonathan Crary Crítico de arte, ensaísta e professor americano, autor da obra "24/7: Capitalismo tardio e os fins do sono", que analisa o ataque do mundo moderno e conectado ao ato de dormir. destrincha magistralmente a falácia do “mundo 24 horas”. O tempo de repouso é a última fronteira que o capitalismo ainda tenta colonizar. A exaltação contínua da performance transforma o simples ato de fechar os olhos em uma ofensa à engrenagem produtiva.
Esse imperativoimperativo Algo que se impõe de maneira categórica, obrigatória ou irrecusável; dever moral, social ou ordem que exige cumprimento imediato. invisível atinge as classes sociais de forma brutalmente desigual. Pessoas à margem, enfrentando jornadas laborais desumanas e habitando lares com baixa qualidade ambiental (barulho excessivo, insegurança, temperatura inadequada), carregam o peso maior do adoecimento. Existe um estigmaestigma Marca, cicatriz, sinal ou desaprovação social associada a uma característica, condição ou comportamento considerado vergonhoso ou inferior pela sociedade. sutil que paira no ar, se você dorme muito, você não é “ambicioso”. A consequência direta é uma massa de indivíduos esgotados, incapazes de criar laços sociais saudáveis, arrastando-se pela vida sob a bandeira da exaustão como medalha de honra.
Podemos, então, nos perguntar: Como a pressão produtiva e as demandas do mercado impactam biologicamente os ciclos de sono? A constante necessidade de produtividade e a sensação de que “sempre há algo por fazer” podem contribuir para a manutenção de um estado de alerta cognitivo e fisiológico incompatível com o relaxamento necessário ao início e à continuidade do sono.

A visão antropológica sobre a insônia
As nossas expectativas sobre o que é “dormir direito” estão baseadas em um delírio histórico de curtíssimo prazo. Os historiadores apontam para o que era comum no ocidente antes da iluminação pública, o sono fragmentado. As comunidades rurais e mesmo os habitantes das cidades medievais deitavam após o pôr do sol, dormiam de três a quatro horas, acordavam no meio da noite por cerca de uma hora e voltavam a dormir. Essa “vigília do meio da noite” era o horário do sexo, da oração, de acender o cachimbo e botar lenha na fogueira. Ninguém surtava de ansiedade por estar acordado às três da manhã.
Mudanças sociais associadas à industrialização, à iluminação artificial e à organização moderna do trabalho contribuíram para consolidar padrões mais rígidos e contínuos de sono noturno. Hoje, quando o sujeito desperta de madrugada e o sono foge, ele entra em pânico. Não porque algo está fundamentalmente quebrado em sua biologia, mas porque ele sente que falhou em seguir o padrão imposto. O peso cultural esmaga o processo fisiológico.
A influência da internet no agravamento da insônia

Não dá para falar de saúde mental sem abordar a tela brilhante que repousa no criado-mudo. É o grande sabotador contemporâneo. A exposição noturna à luz emitida por smartphones e outras telas, especialmente em comprimentos de onda de luz azul, pode interferir no ritmo circadiano e na liberação de melatoninamelatonina Hormônio produzido naturalmente pelo organismo (pela glândula pineal) que sinaliza ao corpo que é hora de dormir, regulando o ciclo do sono., contribuindo para atrasar a preparação do organismo para o sono. Mas o buraco é bem mais embaixo do que apenas a inibição hormonal.
O impacto das redes sociais ocorre por meio do estímulo constante do sistema de recompensa. É o desespero por estar atualizado, a comparação tóxica e o ódio virtual servidos na cama às duas da manhã. O cérebro está em chamas enquanto o corpo tenta, inutilmente, relaxar. Legalmente, já se iniciam debates tardios sobre o direito à desconexãoDireito à Desconexão Princípio jurídico que garante ao trabalhador o direito de não ser contatado por demandas profissionais fora de sua jornada regular de trabalho.. Mandar e-mails de trabalho fora de hora ou forçar a disponibilidade contínua via aplicativos de mensagens adentram o campo do assédio corporativo, alimentando epidemias de privação de descanso. Obviamente, a tecnologia também oferece ferramentas brilhantes, como registros digitais e intervenções baseadas em dados empíricos, mas a arquitetura de atenção, desenhada para viciar, ainda ganha a queda de braço na maioria dos lares.

Descrição clínica da insônia
Os sistemas diagnósticos atuais consideram, entre outros aspectos, a dificuldade persistente para iniciar ou manter o sono, apesar de oportunidade e condições adequadas para dormir, associada a repercussões significativas no funcionamento durante o dia. A frequência e a duração exigidas para o diagnóstico devem ser avaliadas de acordo com os critérios específicos do sistema diagnóstico utilizado, como o DSM e a CID.
Por trás dos sintomasSintomas Sensações e percepções relatadas pelo indivíduo que expressam o seu sofrimento interno, mas que não podem ser medidas diretamente pelo observador. ex: Medo, diferentes modelos neurobiológicos da insônia descrevem um estado de hiperalerta ou hiperexcitação que pode envolver componentes cognitivos, emocionais e fisiológicos. Esses mecanismos são complexos e não se reduzem à atividade isolada de uma única estrutura ou sistema cerebral. Na psiquiatria, a diferenciação diagnóstica é o que separa um tratamento bem-sucedido de um desastre clínico prolongado. Sintomas noturnos frequentemente camuflam apneia severa, reumatismos e distúrbios de movimento (como a síndrome das pernas inquietas), que são condições que não cederão de forma alguma à simples terapia comportamental ou a chás calmantes, demandando intervenção médica rigorosa.
Insônia e psicologiaPsicologia Estudo científico da mente e do comportamento humano, focando em processos mentais, emoções e interações sociais.

A mente insone é uma mente aprisionada pelo catastrofismo. A Terapia Cognitivo-Comportamental para Insônia (TCC-I), considerada uma das principais abordagens de primeira linha para a insônia crônica, examina também as crenças e narrativas internas do indivíduo relacionadas ao sono. A insônia pode se perpetuar quando a pessoa passa a antecipar repetidamente a frustração de não dormir. O medoMedo Emoção básica e desagradável, caracterizada por um estado de alerta ou inquietação, gerada pela percepção (real ou imaginária) de um perigo, ameaça ou dor. É um mecanismo de defesa essencial para a sobrevivência, preparando o indivíduo para reagir através de fuga, luta ou congelamento. Pode envolver reações físicas (taquicardia, suor, tensão), cognitivas (pensamentos de perigo) e comportamentais (esquiva). de uma nova noite em claro pode intensificar o estado de alerta e dificultar ainda mais o início do sono, alimentando um ciclo de preocupação e tensão.
Em minha experiência clínica, observo com frequência que a tentativa de controlar rigidamente o sono pode aumentar a tensão em torno do momento de dormir. Pessoas habituadas a responder às dificuldades com esforço, planejamento e autocobrança podem acabar aplicando a mesma lógica a uma função biológica que não se submete diretamente à força da vontade.
Apresentação dos principais sinaisSinais Evidências clínicas observáveis pelo profissional durante o exame, independentemente do relato direto do paciente. ex: Perda de peso. comportamentais:
- Sensação iminente de colapsocolapso Estado de ruína, desmoronamento ou falência abrupta de uma estrutura, sistema ou equilíbrio. No contexto psicológico e relacional, refere-se à quebra repentina das defesas emocionais ou à desintegração total de um acordo ou vínculo afetivo face a uma crise. físico frente à falta de descanso adequado.
- Crenças errôneas e exageradas sobre sequelas cerebrais supostamente causadas pela privação noturna.
- Ansiedade que se inicia progressivamente à medida que a luz do sol começa a baixar no fim do dia.
- Monitoramento obsessivo das horas durante o período das madrugadas passadas em claro.
- Retração de vínculos interpessoais imposta pela extrema fadiga crônica acumulada.

Como a insônia afeta a vida profissional
As consequências invadem os corredores corporativos com brutalidade. A privação de sono pode comprometer funções relacionadas à atenção, à tomada de decisão, ao controle emocional e ao desempenho executivo. Em minha experiência clínica, observo pessoas brilhantes e altamente capacitadas enfrentando dificuldades de atenção e cometendo erros que podem se tornar mais frequentes quando a privação de sono compromete o funcionamento cognitivo ao longo do dia.
Quando a privação de sono se prolonga, o desgaste pode repercutir no funcionamento profissional e nas relações de trabalho. Irritabilidade, dificuldade de concentração e redução do desempenho podem aparecer de maneiras diferentes conforme a pessoa, a atividade exercida e a intensidade do problema. Entre os sinais que merecem atenção estão:
- Lentificação progressiva na capacidade de leitura e de processamento de novos dados técnicos.
- Respostas emocionais ríspidasríspidas Palavras ou atitudes duras, severas, rudes ou grosseiras; que demonstram aspereza., reativas ou hostis a feedbacks corriqueiros oriundos de chefias diretas.
- Aumento de faltas, atrasos ou necessidade de afastamento quando o cansaço compromete significativamente o funcionamento diário.
- Maior risco de erros em atividades que exigem vigilância contínua, precisão, tomada de decisão ou operação segura de equipamentos.
A insônia diante da clínica médica

O corpo é o palco onde toda essa experiência psíquica também se manifesta. Alterações persistentes do sono podem estar associadas a mudanças nos sistemas envolvidos na resposta ao estresse e a repercussões imunológicas, vasculares e endócrinas. Essas relações são complexas, variam entre indivíduos e continuam sendo investigadas. Alterações persistentes do sono têm sido associadas a diferentes repercussões sobre a saúde física e mental. A relação é complexa e multifatorial, envolvendo mecanismos de estresse, regulação metabólica e processos inflamatórios, entre outros fatores que ainda são objeto de investigação científica.
Os sintomas sistêmicos manifestam-se fisicamente de formas variadas:
- Dores musculoesqueléticas difusas devido ao alto tônus mantido de forma contínua mesmo no período de repouso na cama.
- Alterações na regulação metabólica e no controle da glicose, especialmente quando a privação ou fragmentação do sono se mantém de forma crônica.
- Possíveis repercussões gastrointestinais, cuja relação com o sono pode envolver múltiplos fatores clínicos e comportamentais.
- Cefaleias e outros sintomas físicos que podem estar associados à privação ou à fragmentação do sono e que exigem avaliação clínica quando persistentes.
- Alterações no apetite e nas escolhas alimentares, fenômenos que podem estar relacionados às mudanças metabólicas e comportamentais associadas ao sono insuficiente.

Insônia: a prevalência epidemiológica
Os recortes demográficos escancaram a face estrutural do sofrimento. Estudos epidemiológicos realizados em diferentes populações mostram que queixas relacionadas ao sono são frequentes, embora as estimativas de prevalência variem de acordo com os critérios utilizados, a população estudada e o tipo de transtorno investigado. Os recortes demográficos também mostram que não dormimos todos da mesma maneira.
Diferenças relacionadas ao sexo, às oscilações hormonais ao longo da vida e às condições sociais de cuidado podem influenciar a experiência e a frequência das queixas de sono. Com o envelhecimento, também ocorrem mudanças na arquitetura e na regulação circadiana do sono, que podem favorecer maior fragmentação noturna. Em pessoas idosas, alterações do sono e sonolência diurna merecem avaliação individualizada, inclusive por sua possível relação com segurança, funcionamento diário e risco de quedas. As condições socioeconômicas também influenciam a possibilidade de um sono adequado. Moradias superlotadas, ruído, insegurança, desconforto térmico, jornadas extensas de trabalho e menor acesso a cuidados de saúde podem aumentar a vulnerabilidadeVulnerabilidade A capacidade de se abrir emocionalmente ao outro, essencial para criar vínculos autênticos em relacionamentos. às dificuldades de sono e ampliar desigualdades já existentes.
Tratamentos propostos para a insônia

Uma intervenção clínica sensata e baseada em evidências precisa evitar a ideia de que exista uma única solução para todos os casos. Medicamentos podem ter indicação em situações específicas e devem ser avaliados individualmente por profissional habilitado. Na insônia crônica, abordagens não farmacológicas baseadas em evidências — especialmente a Terapia Cognitivo-Comportamental para Insônia (TCC-I) — ocupam posição central no tratamento, podendo ser combinadas a outras estratégias conforme a avaliação clínica.
A rede de suporte social também conta muito, e pouca gente aponta para isso. Envolver familiares no tratamento e na regulação ambiental (diminuir a atividade da casa às 21h, silenciar discussões densas perto da cama) confere suporte valioso aos esquemas clínicos definidos no ambulatório ou no setting privado.
Em minha experiência clínica, acompanho pessoas que perdem a vitalidade não apenas pela ausência pontual de uma noite perfeita, mas também pela angústia persistente associada à dificuldade de dormir. É necessário que o sujeito encare de frente o próprio adoecimento e acesse serviços de cuidado e escuta. Retardar o início do tratamento e apoiar a cura através de dicas rasas divulgadas por leigos nas mídias sociais apenas enraíza padrões rígidos que, muito em breve, tornar-se-ão pedras insolúveis ao funcionamento mental da vítima desse colapso silencioso.

Perspectiva jurídica brasileira
Na perspectiva jurídica brasileira, questões relacionadas ao descanso, à saúde do trabalhador e aos limites da disponibilidade profissional podem surgir em discussões sobre condições de trabalho e proteção à saúde. A análise de cada situação depende das circunstâncias concretas, das provas disponíveis e da legislação aplicável. Nesse contexto, temas como jornadas excessivas, períodos adequados de repouso e direito à desconexão vêm ganhando espaço no debate jurídico e social, especialmente diante das novas formas de trabalho e da disponibilidade permanente proporcionada pelas tecnologias digitais.
Perspectivas futuras sobre a insônia

Entre as linhas futuras de investigação estão a medicina personalizada do sono, os avanços da cronobiologiacronobiologia Ramo da biologia que estuda os ritmos e os fenômenos temporais nos organismos vivos, como os ciclos de sono e vigília. e a busca por intervenções cada vez mais adaptadas às diferenças individuais de ritmo circadiano. O desenvolvimento dessas áreas poderá ampliar a compreensão sobre como características biológicas individuais influenciam o sono e a resposta aos diferentes tratamentos.
Outro desafio para o futuro é ampliar o acesso a intervenções baseadas em evidências e promover o uso criterioso de medicamentos para o sono, especialmente entre populações mais vulneráveis aos seus efeitos adversos, como pessoas idosas. Paralelamente, políticas de saúde, educação e trabalho podem contribuir para uma cultura que reconheça o sono como componente essencial da saúde, reduzindo a valorização social de jornadas excessivas e da privação de descanso.
Conclusão
A complexa relação entre a insônia e a saúde mental exige do profissional e do paciente uma abordagem que vá além de protocolos rígidos. Para muitos, o momento de deitar tornou-se um espaço de sofrimento silencioso, onde se manifesta o esgotamento gerado pelo ritmo de vida contemporâneo. Em minha experiência clínica, observo que a melhora não costuma decorrer de uma tentativa rígida de controlar a ansiedade para forçar o repouso. Pelo contrário, o processo terapêutico avança quando o indivíduo cessa a resistência contra a falta de sono e aceita a própria vulnerabilidade. Ao reduzir a cobrança e o estado de alerta, torna-se possível restabelecer uma relação funcional com o descanso, integrando as angústias inerentes à experiência humana de forma menos patológica.
AVISO LEGAL
Este artigo aborda conceitos e fundamentos da Sociologia, Antropologia, Desenvolvimento Humano, Saúde Mental, Psicologia e Psiquiatria, porém tem função apenas informativa. Para orientação, avaliação ou diagnóstico clínico, consulte um profissional especializado.
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Leitura complementar
- CRARY, Jonathan. 24/7: Capitalismo tardio e os fins do sono. São Paulo: Ubu Editora, 2016. Obra central sociológica contemporânea em que demonstra como as exigências incansáveis da produtividade aniquilam as bordas que protegiam instâncias sagradas do repouso fisiológico.
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