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Assédio Sexual: quando o poder ultrapassa os limites

O assédio sexualAssédio sexual Expressão utilizada, em sentido amplo, para descrever comportamentos de natureza sexual indesejados que ultrapassam limites, constrangem ou interferem na autonomia da pessoa. No Direito Penal brasileiro, o termo possui definição mais específica e está relacionado ao uso de superioridade hierárquica ou ascendência decorrente de emprego, cargo ou função para obter vantagem ou favorecimento sexual. não se resume a uma aproximação inconveniente. Ele envolve limites, consentimentoConsentimento Concordância livre, atual e reversível para participar de uma atividade sexual. Pode ser retirada a qualquer momento e não é presumida pelo casamento, namoro ou convivência., relações de poderRelações de poder Relações em que uma pessoa dispõe de maior autoridade, influência, prestígio, controle institucional ou capacidade de produzir consequências sobre outra. Essas diferenças podem limitar a liberdade de resposta diante de uma aproximação indesejada. e consequências que podem alcançar a vida emocional, profissional e relacional de quem passa por essa experiência.

Quando uma situação deixa de ser apenas desconfortável?

Mulher afasta a mão de um homem que toca seu ombro no ambiente de trabalho.

Em que momento uma aproximação, um comentário ou um comportamento de natureza sexual deixa de ser apenas indesejado e passa a representar uma violação de limites?

Há situações em que a resposta parece evidente: a pessoa se sente constrangida, percebe que não queria aquela aproximação e reconhece quase imediatamente que alguma fronteira foi ultrapassada. Em outras, porém, o entendimento acontece de forma mais lenta. Surge primeiro um mal-estar difícil de explicar, depois a vontade de evitar determinado encontro ou uma irritação que parece desproporcional ao que aconteceu, até que, algum tempo depois, a experiência começa a adquirir sentido.

Essa demora costuma ser mal compreendida porque muitas vezes se espera que quem vive uma situação de assédio consiga identificá-la imediatamente, reagir de maneira firme, procurar ajuda e, se for o caso, denunciar. A experiência humana raramente se organiza dessa forma. Quando existem medoMedo Emoção básica e desagradável, caracterizada por um estado de alerta ou inquietação, gerada pela percepção (real ou imaginária) de um perigo, ameaça ou dor. É um mecanismo de defesa essencial para a sobrevivência, preparando o indivíduo para reagir através de fuga, luta ou congelamento. Pode envolver reações físicas (taquicardia, suor, tensão), cognitivas (pensamentos de perigo) e comportamentais (esquiva)., dependência, surpresa ou diferença de poder, a reação pode ser muito mais ambígua, e preservar a rotina pode parecer mais seguro do que enfrentar o problema. Em outras situações, a pessoa percebe que alguma coisa está errada, mas ainda não consegue formular com clareza o que aconteceu.

Por isso, silêncio não equivale a consentimento, assim como continuar trabalhando ao lado de alguém não significa que determinado comportamento tenha sido aceito. Rir de nervoso, mudar de assunto, afastar-se aos poucos ou fingir que nada aconteceu podem ser maneiras de atravessar uma situação que, naquele momento, parece difícil demais para ser enfrentada de outra forma. São respostas possíveis diante de circunstâncias em que a pessoa ainda tenta compreender o que viveu e quais consequências uma reação mais direta poderia produzir.

Também é necessário evitar uma confusão frequente. Na linguagem cotidiana, assédio sexual é uma expressão ampla e pode ser utilizada para descrever diferentes condutas indesejadas de natureza sexual; no Direito brasileiro, entretanto, algumas dessas condutas recebem enquadramentos distintos. Há situações que podem corresponder ao crime de assédio sexual, outras à importunação sexual, outras ainda a formas de violência sexual ou a ilícitos de natureza trabalhista, civil ou administrativa. O fato de uma experiência não caber em determinada definição penal não a torna irrelevante nem elimina seus possíveis efeitos.

A questão central está em compreender o que aconteceu com a autonomiaAutonomia Possibilidade de participar das decisões e ter algum controle sobre a maneira de organizar e realizar o próprio trabalho. da pessoa. Houve espaço real para escolher? A recusa foi respeitada? Existia uma relação de poder que dificultava uma resposta livre? A insistência continuou depois de sinaisSinais Evidências clínicas observáveis pelo profissional durante o exame, independentemente do relato direto do paciente. ex: Perda de peso. claros de desconforto? Perguntas como essas ajudam mais do que a tentativa de encaixar imediatamente toda situação em um rótulo, porque permitem observar o contexto e a qualidade da liberdade que de fato existia naquele momento.

Durante muito tempo, porém, nem sequer existia uma linguagem social suficientemente clara para formular essas perguntas. Os comportamentos já existiam, assim como o desconforto e as consequências que provocavam, mas ainda faltava uma forma coletiva de reconhecê-los e nomeá-los.

Quando o assédio sexual ganhou um nome

Como mudar uma experiência quando aquilo que parecia ser apenas um problema individual passa a ser reconhecido como fenômeno social?

Silhueta de um homem observando uma mulher que trabalha diante de um computador em um escritório.

O assédio sexual não começou quando passou a ser chamado assim. Antes de receber esse nome, muitas pessoas já enfrentavam aproximações insistentes, pressões, comentários invasivos e constrangimentos em ambientes nos quais dependiam da outra pessoa ou tinham pouco espaço para reagir. O que faltava era uma maneira de reunir experiências que pareciam isoladas e perceber que nelas se repetiam elementos semelhantes.

Na década de 1970, esse cenário começou a se transformar de modo mais visível. Em 1975, nos Estados Unidos, a expressão sexual harassment ganhou projeção durante mobilizações de mulheres ligadas à Universidade Cornell. Trabalhadoras começaram a perceber que situações tratadas até então como problemas particulares tinham elementos em comum: insistências de natureza sexual, desigualdade de poder e consequências profissionais para quem recusava ou reagia. Nomear essas experiências permitiu que aquilo que parecia pertencer apenas à história pessoal de cada mulher passasse a ser discutido como fenômeno social.

A mudança, portanto, não foi apenas linguística. Ao ganhar um nome, o problema também ganhou condições de ser pesquisado, debatido juridicamente e enfrentado por políticas institucionais. Aos poucos, tornou-se mais difícil sustentar a ideia de que se tratava simplesmente de “cantadas inconvenientes”, porque em muitos casos a questão não estava apenas na manifestação de desejo, mas no uso de posição profissional, prestígio ou autoridade para criar pressão.

Em 1986, o caso Meritor Savings Bank v. Vinson, julgado pela Suprema Corte dos Estados Unidos, tornou-se um marco importante dessa história ao reconhecer que o assédio sexual poderia constituir forma de discriminação no trabalho. Trata-se de uma referência histórica norte-americana, e não de uma regra jurídica brasileira, mas ela ilustra uma mudança decisiva: o ambiente profissional também passou a ser analisado a partir da qualidade das relações que permitia, estimulava ou tolerava.

No Brasil, o crime de assédio sexual foi introduzido no Código Penal em 2001. O artigo 216-A estabelece uma definição específica, ligada ao uso de superioridadeSuperioridade Atitude ou convicção interna de que se possui qualidades, status ou habilidades acima da média das outras pessoas, justificando um tratamento preferencial. hierárquica ou ascendência decorrente do emprego, cargo ou função para obter vantagem ou favorecimento sexual. Essa definição jurídica é mais restrita do que a forma como a expressão costuma aparecer nas conversas cotidianas, e essa diferença precisa ser mantida clara ao longo de qualquer discussão sobre o tema.

O reconhecimento social do problema, porém, avançou por caminhos mais amplos do que a própria tipificação penalTipificação penal Enquadramento de determinada conduta em um tipo de crime previsto pela legislação penal. Uma experiência socialmente reconhecida como inadequada ou abusiva pode não corresponder necessariamente a uma tipificação penal específica.. Movimentos feministas, campanhas públicas e mudanças culturais contribuíram para que comportamentos antes tratados como parte inevitável do cotidiano passassem a ser questionados. No Brasil, campanhas como Chega de Fiu Fiu e Meu Primeiro Assédio ajudaram a deslocar essas experiências da esfera privada para o debate público e deram linguagem a situações que muitas pessoas ainda não sabiam como descrever.

O movimento “me too.”, criado por Tarana Burke em 2006, ganhou dimensão mundial em 2017 com a hashtag #MeToo. A força daquele momento esteve justamente na repetição de histórias, porque pessoas de diferentes profissões e contextos começaram a perceber que aquilo que haviam vivido não era tão excepcional quanto imaginavam. Quando milhões de relatos aparecem, torna-se mais difícil atribuir cada caso apenas a um mal-entendido individual, e a sociedade precisa rever as explicações que vinha utilizando.

Ao mesmo tempo, maior visibilidade não deve ser interpretada automaticamente como prova de aumento da ocorrência. Quando um tema passa a ser discutido de maneira mais aberta, mais pessoas conseguem reconhecê-lo, atribuir-lhe um nome e se sentir autorizadas a falar. O número de relatos pode crescer porque o silêncio diminuiu, e essa diferença é importante para qualquer leitura responsável dos dados.

No Brasil, a Lei nº 14.457/2022 avançou na prevenção do assédio sexual e de outras formas de violência em determinados ambientes de trabalho, incluindo medidas relacionadas à CIPA (Comissão Interna de Prevenção de Acidentes e de Assédio). Em escala internacional, a Convenção nº 190 da OITOIT Organização Internacional do Trabalho, agência especializada das Nações Unidas dedicada à promoção de direitos, condições dignas de trabalho e normas internacionais relacionadas ao mundo do trabalho. (Organização Internacional do Trabalho), adotada em 2019, consolidou a ideia de que trabalhadores têm direito a um mundo do trabalho livre de violência e assédio. Até a elaboração deste artigo, o Brasil ainda não havia ratificado essa convenção, de modo que ela não pode ser apresentada como norma vigente no país.

A história mostra avanços, mas também evidencia resistências. Uma sociedade pode modificar suas leis e, ainda assim, continuar reproduzindo hábitos antigos; pode condenar publicamente o assédio e, ao mesmo tempo, rir de comportamentos semelhantes em determinados ambientes. Entre aquilo que se declara e aquilo que se tolera existe, muitas vezes, uma distância significativa, e é nesse intervalo que a culturaCultura Conjunto de valores, conhecimentos, costumes, crenças, práticas e significados compartilhados e transmitidos em uma sociedade ou grupo. se torna decisiva.

O que cada sociedade aprende a considerar aceitável

Mulher demonstra desconforto enquanto um homem coloca a mão sobre a dela diante de um notebook.

Até que ponto aquilo que aprendemos sobre sedução, gênerogênero Construção social, cultural e histórica que dita os papéis, comportamentos, expressões, responsabilidades e identidades associados a homens, mulheres e outras categorias de género no seio de uma determinada comunidade ou sociedade. e consentimento influencia a maneira como reconhecemos uma invasão de limites?

Ninguém aprende a se relacionar no vazio. Desde cedo recebemos mensagens sobre o que significa conquistar alguém, como homens e mulheres “devem” se comportar, qual seria o papel da insistência e o que se espera de quem deseja recusar uma aproximação. Esses aprendizados atravessam filmes, músicas, conversas cotidianas, relações familiares e experiências pessoais, e acabam funcionando como referências mesmo quando nunca foram examinados de maneira consciente.

Algumas dessas ideias parecem inocentes até que começam a produzir consequências. A noção de que insistência demonstra interesse, por exemplo, pode ser romantizada e apresentada como parte natural da sedução, mas deixa de ser inofensiva quando continua depois que a outra pessoa demonstra desconforto ou recusa. Também existe uma longa tradição cultural de atribuir ao homem o papel de iniciativa e à mulher o papel de conter, adiar ou moderar a aproximação, o que pode levar uma recusa a ser interpretada como hesitação, jogo ou convite para continuar tentando.

É justamente nesse ponto que o conceito de consentimento se torna central. Consentimento não é ausência de resistência, não é silêncio e tampouco uma autorização obtida uma única vez e válida indefinidamente. Ele depende da possibilidade real de escolher, precisa existir dentro de um contexto em que a pessoa possa se posicionar com liberdade e pode ser retirado a qualquer momento.

Esse aprendizado ainda está em curso. Muitas pessoas adultas cresceram sem jamais conversar de forma clara sobre consentimento e aprenderam sobre sexualidadeSexualidade Dimensão fundamental do ser humano que envolve sexo, identidades, papéis de gênero, orientação e intimidade. por observação, referências culturais ou experiências pessoais. Isso ajuda a compreender por que algumas situações demoram a ser reconhecidas como invasivas e por que, diante de determinadas experiências, a primeira reação pode ser a dúvida em vez da certeza.

Em minha experiência clínica, chama atenção a frequência com que a pessoa começa dizendo que “talvez esteja exagerando”. À medida que relata o contexto, percebe-se que o desconforto não nasceu apenas de uma frase ou de um gesto isolado, mas do conjunto formado pela insistência, pela posição da outra pessoa, pelo receio das consequências e pela sensação de não poder responder com liberdade. É essa combinação que, muitas vezes, torna a experiência tão difícil de nomear.

A cultura das organizações também interfere nesse reconhecimento. Em alguns ambientes, comentários sobre aparência, piadas sexualizadas e invasões de privacidade fazem parte do cotidiano, enquanto quem demonstra incômodo corre o risco de ser visto como alguém “sem senso de humor” ou excessivamente sensível. Quando esse padrão se repete, os limites ficam menos claros, e a pessoa pode saber que se sentiu desconfortável e, ao mesmo tempo, imaginar que deveria tolerar aquilo porque “sempre foi assim”.

Isso não significa que toda diferença cultural deva ser tratada como assédio. A Antropologia justamente nos ensina a observar contextos antes de julgar, mas compreender diferenças culturais não exige aceitar coerçãocoerção Ato de induzir, pressionar ou obrigar alguém a adotar determinado comportamento por meio da força, intimidação ou ameaça. ou violação da autonomia. Uma sociedade muda quando começa a questionar aquilo que antes tratava como natural, e essa mudança costuma ser incômoda porque mexe com hábitos antigos e, principalmente, com relações de poder. Quando determinado comportamento deixa de ser visto como “normal”, também se torna possível perguntar quem se beneficiava daquela normalidade.

Quando o poder organiza o silêncio

Por que algumas pessoas conseguem ultrapassar limites durante tanto tempo sem encontrar resistência visível?

Mulher sentada segura a cabeça enquanto um homem aponta para o relógio em um ambiente de trabalho.

Falar de assédio sexual sem falar de poder deixa a análise incompleta. Poder não está apenas no cargo mais alto; pode estar no prestígio, na experiência profissional, na capacidade de influenciar uma promoção, na proximidade com a direção de uma instituição ou na reputação que faz com que uma pessoa seja automaticamente considerada mais confiável do que outra. Quem ocupa uma posição mais vulnerável percebe essas diferenças, mesmo quando elas nunca são explicitadas.

Uma pessoa pode receber uma mensagem indesejada de um colega e simplesmente bloqueá-lo, mas a mesma mensagem, quando enviada por alguém que controla sua avaliação profissional, pode produzir uma experiência muito diferente. O conteúdo pode ser semelhante; o contexto altera completamente o significado. É por isso que tantas análises ficam pobres quando perguntam apenas “por que não disse não?”. Talvez a pergunta mais adequada seja o que dizer não significaria naquela situação concreta.

Para algumas pessoas, a consequência imaginada de uma recusa é apenas um momento de constrangimento; para outras, pode significar perder espaço profissional, ser excluída de projetos, ter sua reputação colocada em dúvida ou conviver diariamente com alguém que ocupa posição superior. As desigualdades de gênero continuam relevantes nesse processo, e muitos estudos mostram maior frequência de relatos de assédio sexual entre mulheres, sobretudo em determinados ambientes de trabalho. Isso não significa que homens não possam sofrer assédio nem que mulheres não possam praticá-lo, mas ajuda a compreender como determinadas relações sociais distribuem de maneira desigual poder, exposição e risco.

Também há situações em que mulheres em cargos de liderança são sexualizadas justamente porque ocupam um espaço de poder. Nesses casos, o comportamento pode funcionar como tentativa de desqualificação: em vez de responder à competência profissional, desloca-se a atenção para o corpo, a aparência ou a sexualidade. Gênero, raça, idade, orientação sexualorientação sexual Direcionamento da atração afetiva, romântica, emocional e/ou sexual que um indivíduo manifesta por outras pessoas, seja pelo mesmo gênero (homossexualidade), por gêneros diferentes (heterossexualidade) ou por mais do que um gênero (bissexualidade, pansexualidade)., condição econômica e posição profissional podem se combinar de formas diferentes, e por isso não existe uma única figura de vítima ou de agressor.

O silêncio precisa ser interpretado dentro dessa complexidade. Uma pessoa pode optar por não denunciar porque sabe que precisará continuar trabalhando no mesmo lugar, teme que colegas se afastem ou acredita que ninguém dará crédito ao relato. Às vezes, começa a mudar pequenos aspectos da rotina, evitando elevadores, reuniões, determinados horários ou situações em que poderia ficar sozinha. Essas adaptações podem parecer discretas para quem observa de fora, mas revelam quanto espaço o problema começou a ocupar na vida cotidiana.

Quando uma recusa é seguida de isolamento, desqualificação ou prejuízo profissional, o assédio sexual pode se misturar a outras formas de violência no trabalho, inclusive o assédio moralAssédio Moral Processo de perseguição psicológica sistemática no ambiente de trabalho que visa a exclusão ou degradação da vítima.. A sobreposição torna a experiência ainda mais difícil de compreender, porque a pessoa pode não saber se está sendo punida pela recusa ou se “coisas normais do trabalho” começaram apenas a parecer diferentes. A Sociologia ajuda justamente a sair da ideia de que tudo depende de escolhas individuais, lembrando que pessoas escolhem dentro de condições concretas. Essa compreensão não retira autonomia; ao contrário, permite entender por que algumas respostas são possíveis e outras não.

Quando o poder do ambiente começa a interferir na maneira como alguém percebe a si mesmo, nas próprias escolhas e na confiança em seus limites, entramos de forma mais direta no terreno da PsicologiaPsicologia Estudo científico da mente e do comportamento humano, focando em processos mentais, emoções e interações sociais. Clínica.

O que acontece por dentro quando um limite é ultrapassado

Homem coloca o braço sobre o ombro de uma colega que demonstra desconforto no ambiente de trabalho.

Por que uma situação que durou poucos minutos pode continuar presente durante semanas ou meses?

A duração de uma experiência não determina o tamanho de seu impacto. Uma frase pode ser esquecida no mesmo dia ou permanecer na memória durante anos, dependendo do contexto, da história da pessoa, do significado atribuído ao que aconteceu e, sobretudo, da sensação de segurança ou de perda de controle que acompanhou o episódio. Na prática clínica, portanto, a primeira tarefa não é decidir se a reação “combina” com a gravidade do fato, mas compreender o que aquela situação representou para quem a viveu.

As respostas podem ser muito diferentes. Algumas pessoas chegam muito assustadas, outras chegam com raiva, há quem relate o episódio de maneira quase fria e só mais tarde perceba o quanto aquilo afetou sua rotina, e também existem pessoas que não apresentam sofrimento psicológico importante. Nenhuma dessas formas de reagir funciona como prova de maior ou menor gravidade, porque a experiência emocional não segue um roteiro único.

A autoculpa, porém, aparece com frequência. A pessoa começa a rever cada detalhe, o que falou, como se vestiu, se poderia ter evitado determinado encontro, se riu demais ou se foi educada demais, numa tentativa de descobrir em que momento teria “permitido” que aquilo acontecesse. Por trás dessas perguntas existe, muitas vezes, uma busca por controle: se eu descobrir onde errei, talvez consiga acreditar que isso nunca mais acontecerá. O problema é que esse raciocínio pode transformar a própria pessoa em responsável pelo limite que o outro escolheu não respeitar.

Há ainda outro movimento importante: a dúvida sobre a própria percepção. Isso se torna mais forte quando o ambiente minimiza o episódio, sobretudo se colegas dizem que era “apenas uma brincadeira” ou que aquela pessoa “é assim mesmo”. Aos poucos, o incômodo pode começar a parecer ilegítimo, e a pergunta deixa de ser apenas “o que aconteceu?” para se transformar em “posso confiar no que senti?”. Essa perda de confiança na própria percepção pode ser mais perturbadora do que o episódio inicial, porque passa a interferir na maneira como a pessoa interpreta situações futuras e estabelece novos limites.

O trabalho clínico precisa ser cuidadoso justamente nesse ponto. Acolher não significa confirmar automaticamente qualquer interpretação, mas oferecer um espaço em que a experiência possa ser pensada sem ridicularização, pressão ou julgamento. Em minha experiência clínica, um erro comum é imaginar que ajudar significa incentivar imediatamente uma denúncia. Denunciar pode ser importante, mas não é sinônimo de tratamento nem de recuperação; para algumas pessoas esse será o caminho escolhido, enquanto para outras a decisão poderá ser diferente. A psicoterapiaPsicoterapia Tratamento baseado na fala e em técnicas psicológicas para abordar questões emocionais, mentais e comportamentais. não deve substituir a autonomia que já foi abalada.

O sofrimento psicológico também pode aparecer de formas variadas. Ansiedade, irritabilidade, dificuldade para dormir, perda de concentração, hipervigilânciaHipervigilância  Estado de sensibilidade aumentada e monitoramento constante do ambiente ou do próprio corpo em busca de sinais de ameaça ou falha., tristeza e medo podem surgir depois de experiências de assédio, mas esses sinais precisam ser compreendidos dentro do contexto e da história individual e, isoladamente, não constituem um diagnóstico. Algumas pessoas passam a evitar determinados lugares ou situações, outras sentem desconforto ao encontrar alguém que lembra a pessoa envolvida, e há quem apresente queda de desempenho no trabalho porque boa parte da energia mental passou a ser usada para vigiar o ambiente.

Quando existe impacto sobre a autoestimaAutoestima A autoestima é a avaliação subjetiva que um indivíduo faz de si mesmo, englobando crenças sobre sua própria competência, valor e aparência., pode surgir uma sensação de desvalorização. A pessoa começa a se perguntar se foi respeitada por sua competência ou se era vista apenas a partir de sua aparência ou disponibilidade sexual, e esse efeito pode ser particularmente intenso quando o episódio ocorre em ambiente profissional. A sexualidade também pode ser afetada, embora isso não aconteça necessariamente: algumas pessoas passam a sentir medo de aproximações, redução de desejo ou desconforto com a intimidadeIntimidade Conexão profunda entre parceiros que envolve vulnerabilidade, confiança e partilha de afetos e desejos., enquanto outras não apresentam qualquer alteração. Quando existe uma repercussão real nessa área, a Terapia Sexual pode fazer parte do cuidado, mas não há motivo para introduzi-la apenas porque o evento envolveu conteúdo sexual.

O processo de recuperação costuma envolver a reconstrução de segurança e de confiança na própria capacidade de escolher. Aos poucos, a pessoa pode deixar de organizar a vida em função daquilo que aconteceu, e isso não significa necessariamente esquecer. Em muitos casos, recuperar-se é conseguir lembrar sem sentir que aquela experiência continua determinando o presente.

Também é fundamental separar compreensão clínica de comprovação jurídica. SintomasSintomas Sensações e percepções relatadas pelo indivíduo que expressam o seu sofrimento interno, mas que não podem ser medidas diretamente pelo observador. ex: Medo psicológicos podem ser compatíveis com sofrimento, mas não funcionam como detector de verdade. A Psicologia pode avaliar impacto emocional, funcionamento e necessidades de cuidado, mas não substitui a investigação de fatos. Essa distinção preserva a seriedade clínica e ajuda a delimitar com mais precisão o papel de cada área.

Quando o assédio acontece no trabalho, entretanto, parte daquilo que a pessoa sente depende diretamente da resposta oferecida pela própria organização.

Quando o ambiente de trabalho também participa do problema

O que muda quando a instituição protege quem fala ou quando faz exatamente o contrário?

Mulher demonstra tensão enquanto um homem permanece muito próximo atrás dela em uma mesa de escritório.

Uma organização não controla todas as atitudes individuais de seus integrantes, mas influencia fortemente aquilo que se torna possível dentro de seu ambiente. Isso aparece menos nos documentos formais do que na rotina, porque empresas podem possuir códigos de conduta detalhados e, ainda assim, tolerar comentários sexualizados quando partem de alguém considerado importante. Também podem divulgar canais de denúncia e, ao mesmo tempo, deixar circular a ideia de que “quem reclama demais não cresce”. É essa diferença entre regra e prática que molda a confiança das pessoas na instituição.

Se uma pessoa acredita que será exposta, prejudicada ou desacreditada, é pouco provável que utilize um canal interno, por melhor que ele pareça no papel. A liderança ocupa posição delicada nesse processo: um gestor que escuta com respeito, preserva confidencialidade e evita retaliações pode reduzir bastante o dano, enquanto outro que faz piada, minimiza o relato ou passa a tratar quem denunciou como alguém “difícil” pode aprofundá-lo.

Prevenção também precisa ir além de treinamentos formais. Um curso anual sobre assédio tem pouco efeito quando o cotidiano contradiz aquilo que foi ensinado, porque a cultura real de uma organização aparece justamente quando alguém importante é acusado e as regras precisam continuar valendo mesmo diante de interesses internos. A pergunta decisiva, nesse momento, é se a instituição mantém seus critérios ou começa a criar exceções.

Depois de uma denúncia, a organização ainda precisa cuidar para não transformar proteção em punição. Retirar a pessoa de projetos, mudá-la de setor ou limitar suas responsabilidades pode parecer uma solução, mas também pode produzir perda profissional. Em alguns casos, o episódio formal termina e, ainda assim, o ambiente continua hostil, com colegas tomando partido, comentários circulando e relações se modificando. É nesse momento que a Psicologia Organizacional se aproxima da clínica sem se confundir com ela, porque o sofrimento pertence à pessoa, mas o ambiente pode contribuir tanto para reduzi-lo quanto para mantê-lo.

Uma instituição saudável não é aquela que nunca recebe denúncias, mas aquela em que as pessoas sabem que podem falar sem automaticamente colocar sua própria trajetória em risco. Quando, mesmo com apoio, o sofrimento se torna persistente ou muito intenso, surge outra necessidade: avaliar se existe um quadro psiquiátrico que exige investigação e tratamento específicos.

Quando o sofrimento exige avaliação diagnóstica

Mulher com fita sobre a boca é segurada por um homem e mostra a palavra MeToo escrita na mão.

Quando uma reação emocional deixa de ser apenas uma resposta ao que aconteceu e passa a exigir investigação psiquiátrica?

Nem todo sofrimento precisa de diagnóstico, e essa afirmação se torna especialmente importante num tempo em que experiências humanas difíceis são rapidamente traduzidas em nomes de transtornos. Depois de uma situação de assédio, uma pessoa pode sentir medo, tristeza, irritação ou apresentar dificuldade para dormir sem que isso, por si só, configure um quadro psiquiátrico. A Psiquiatria se torna particularmente relevante quando os sintomas persistem, aumentam de intensidade ou começam a comprometer de maneira significativa a vida cotidiana.

O diagnóstico depende do conjunto e exige considerar história anterior, duração e intensidade dos sintomas, nível de funcionamento, uso de substâncias, outras experiências traumáticas e possíveis condições médicas. O TEPT (TranstornoTranstorno Conjunto de sinais e sintomas clinicamente significativos que afetam a cognição e o comportamento, gerando sofrimento pessoal e prejuízo funcional. Ex. Transtorno do Pânico. de Estresse Pós-Traumáticoestresse pós-traumático Perturbação da saúde mental caracterizada por um conjunto de reações físicas e psicológicas severas que se desenvolvem após a pessoa ter sido exposta a um evento extremamente estressante, traumático ou ameaçador à vida.) costuma aparecer nesse debate, mas não pode ser aplicado de forma automática. A CID-11CID-11 Décima primeira revisão da Classificação Internacional de Doenças, sistema desenvolvido pela Organização Mundial da Saúde para organizar condições de saúde, incluindo transtornos mentais e comportamentais. No artigo, é utilizada como referência para diferenciar diferentes quadros de ansiedade e fobia. (Classificação Internacional de Doenças, 11ª Revisão) e o DSM-5-TRDSM-5-TR Texto revisado da quinta edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, publicado pela Associação Americana de Psiquiatria. Reúne critérios utilizados como referência para classificação e avaliação de transtornos mentais. (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, 5ª edição, texto revisado) possuem critérios específicos para transtornos relacionados a trauma, e o fato de alguém ter vivido uma experiência de assédio não significa que o evento, por si só, preencha todos os requisitos necessários.

Quando há violência sexual, ameaça grave ou outras condições compatíveis com os critérios de exposição traumática, essa hipótese pode ganhar relevância, mas continua sendo uma hipótese até que a avaliação seja realizada. Também existem diferenças entre os próprios sistemas diagnósticos: a CID-11 reconhece o TEPT Complexo (Transtorno de Estresse Pós-Traumático Complexo) como categoria própria, enquanto o DSM-5-TR não adota esse diagnóstico de forma separada. Essa diferença mostra por que expressões como “trauma complexo” não devem ser usadas de maneira imprecisa apenas porque parecem explicar o sofrimento.

Ansiedade, depressãoDepressão Transtorno mental comum, mas grave, caracterizado por uma tristeza persistente e uma perda de interesse em atividades que antes eram prazerosas. Diferente de uma tristeza passageira, a depressão afeta a forma como a pessoa sente, pensa e lida com atividades diárias, como dormir, comer ou trabalhar. e crises de pânico também podem aparecer depois de experiências de assédio, mas, novamente, associação não é sinônimo de diagnóstico nem prova causalidade individual.

Uma situação exige atenção imediata quando existe risco de suicídio. Alguns estudos identificam associação entre assédio sexual no trabalho e maior risco de tentativa de suicídio ou suicídio em certos grupos, mas esse dado não permite afirmar que determinado episódio, sozinho, causou um comportamento suicida. Na avaliação concreta, interessa saber se há pensamento de morte, plano, acesso a meios, tentativas anteriores, desesperança, isolamento, impulsividadeImpulsividade Tendência a agir, falar ou decidir rapidamente, com avaliação insuficiente das possíveis consequências. Pode aparecer em interrupções, dificuldade para esperar, gastos não planejados ou escolhas precipitadas. e fatores de proteção. Quando o risco é iminente, a prioridade é cuidar da vida, e não discutir classificações.

Também não se deve confundir diagnóstico com incapacidadeIncapacidade Redução ou perda da possibilidade de desempenhar determinadas atividades em razão de uma condição de saúde. No contexto trabalhista ou previdenciário, sua existência precisa ser avaliada individualmente. profissional. Uma pessoa pode ter um transtorno e continuar trabalhando, enquanto outra pode apresentar incapacidade temporária sem que exista um único evento responsável por todo o quadro. A Psiquiatria contribui quando acrescenta precisão clínica, e não quando transforma sofrimento em rótulo.

Em algumas situações, porém, a experiência envolve consequências físicas que exigem outro tipo de cuidado e tornam necessária a participação direta da Medicina.

Quando o cuidado médico se torna necessário

Em que situações o assédio deixa de ser apenas uma questão psicológica ou relacional e exige também atenção médica?

Profissional de saúde de uniforme azul segura um estetoscópio.

Muitas experiências de assédio sexual não produzem qualquer lesão física. Comentários, mensagens, ameaças veladas ou insistências podem ser profundamente invasivos sem envolver contato corporal, e por isso o cuidado médico ganha outra importância quando existe violência física associada, contato forçado, lesão, exposição a fluidos ou risco de gravidez.

Nessas situações, a pessoa não deve ser tratada como objeto de investigação. Explicar o que será feito, respeitar consentimento e preservar privacidade fazem parte do próprio tratamento. Se houver lesões, o registro clínico precisa ser objetivo, porque descrever aquilo que foi observado é diferente de concluir juridicamente como o fato aconteceu. Da mesma forma, a ausência de lesões não prova ausência de violência, já que muitas situações não deixam marcas visíveis.

Quando existe possibilidade de exposição ao HIV (Vírus da Imunodeficiência Humana), outras infecções sexualmente transmissíveis ou hepatites virais, a avaliação deve seguir os protocolos médicos vigentes. A PEP (Profilaxia Pós-Exposição) pode ser indicada dependendo da natureza da exposição e do tempo transcorrido. Em situações com possibilidade de gravidez, a contracepção de emergênciaContracepção de emergência Método utilizado para reduzir a possibilidade de gravidez após uma relação sexual ou situação de exposição com risco de gestação, dentro de condições e prazos específicos. pode ser considerada conforme o caso, e a coleta de vestígios pertence a contextos específicos nos quais protocolos e consentimento também precisam ser respeitados.

Nada disso deve ser aplicado automaticamente a qualquer situação chamada de assédio sexual. É exatamente por isso que diferenciar assédio, importunação e violência sexual importa também do ponto de vista clínico. Hoje, entretanto, parte dessas experiências nem sequer acontece no mesmo espaço físico, e a tecnologia acrescentou novas formas de aproximação, insistência e invasão de limites.

Quando o assédio atravessa as telas

Mulher cobre o rosto diante de um computador enquanto uma mão aponta para ela através da tela.

O que acontece quando a pessoa sai do ambiente em que se sentiu constrangida, mas o contato continua no celular?

A tecnologia tornou nossas relações mais próximas e, ao mesmo tempo, mais difíceis de delimitar. No trabalho, mensagens chegam fora do expediente, chefias e colegas se encontram em redes sociais e conversas profissionais migram para aplicativos pessoais. Com isso, a fronteira entre estar disponível e estar acessível o tempo inteiro ficou menos clara, criando espaço para situações que antes terminariam quando a pessoa deixasse o ambiente físico e que agora podem continuar ao longo da noite ou reaparecer em diferentes plataformas.

O meio digital, por si só, não define o assédio. Contexto, insistência, consentimento e relação entre as pessoas continuam sendo fundamentais, mas a tecnologia acrescenta duas características importantes: permanência e alcance. Uma mensagem pode ser guardada, uma imagem pode ser copiada e um conteúdo pode circular sem que a pessoa consiga controlar onde termina. Quando se trata de material íntimo, essa perda de controle pode produzir um sofrimento próprio e prolongar a sensação de exposição muito além do momento inicial.

Os registros digitais também podem ajudar a reconstruir acontecimentos, porque mensagens, áudios e e-mails podem ser úteis em procedimentos institucionais ou jurídicos. Ao mesmo tempo, não se pode concluir que uma experiência não aconteceu simplesmente porque não deixou registros. A ausência de documento não é, por si só, prova de ausência de experiência.

A inteligência artificial trouxe ainda outro problema: conteúdos sexualizados falsos podem ser produzidos com aparência convincente. Uma imagem pode nunca ter existido e, ainda assim, destruir reputação, gerar vergonha ou provocar medo. Essa é uma das áreas em que as formas de violência mudam rapidamente enquanto as respostas sociais e jurídicas ainda tentam acompanhar. Apesar das novas tecnologias, porém, a questão fundamental permanece antiga: até onde alguém pode entrar na vida do outro sem autorização?

Os dados populacionais ajudam a dimensionar esse problema, mas também têm limites que precisam ser considerados para que os números não sejam interpretados de maneira simplista.

O que os números conseguem mostrar — e o que eles não mostram

Se tantas pessoas não denunciam, até que ponto as estatísticas conseguem revelar a dimensão real do assédio sexual?

Gráfico de barras mostra aumento das notificações de importunação sexual no Brasil, de 1.352 em 2018 para 27.530 em 2022.

Todo número sobre assédio precisa ser lido com cautela, porque o resultado depende muito da maneira como a pesquisa foi realizada. Um estudo que pergunta diretamente “você já sofreu assédio sexual?” depende de a pessoa usar essa expressão para definir a própria experiência, enquanto outro pode descrever situações concretas e encontrar números diferentes. Também variam o período investigado, o ambiente e a população estudada, e por isso prevalências de estudos distintos não devem ser comparadas de maneira automática.

Pesquisas internacionais mostram que violência e assédio no mundo do trabalho são experiências relevantes em diferentes populações e que, dentro desse conjunto, condutas de natureza sexual aparecem com frequência importante. Mulheres relatam esse tipo de experiência em proporção maior em muitos estudos, especialmente em certos contextos profissionais, mas esse dado descreve grupos e não indivíduos. Homens podem sofrer assédio, assim como pessoas LGBTQIA+, pessoas com deficiência, trabalhadores em vínculos precários e outros grupos que apresentam vulnerabilidades específicas. A EpidemiologiaEpidemiologia Estudo da distribuição, frequência e determinantes dos estados ou eventos relacionados à saúde em populações específicas. ajuda a enxergar essas diferenças, mas não deve produzir estereótipos.

Outro problema central é a subnotificação. Nem toda pessoa denuncia, algumas sequer reconhecem imediatamente o que aconteceu como assédio e outras preferem não se expor, o que significa que o número de denúncias nunca corresponde perfeitamente ao número de situações ocorridas. Por isso, um ambiente com poucos registros pode ser seguro, mas também pode ser um lugar em que ninguém confia no sistema.

No Brasil, existem estudos e levantamentos relevantes, mas ainda há dificuldade em comparar resultados por causa de diferenças metodológicas. Também é necessário cuidado ao interpretar aumentos de relatos, porque depois de campanhas públicas é comum que mais pessoas se sintam capazes de nomear experiências antigas. Mais relatos, portanto, não significam necessariamente mais casos ocorrendo naquele momento.

Os números são fundamentais para políticas públicas e para compreender padrões coletivos, mas não substituem a compreensão individual. Quando alguém procura ajuda, nenhuma prevalênciaPrevalência Medida que expressa a proporção de pessoas de uma população que apresentam determinada condição ou relatam determinada experiência em um período ou momento definido. responde sozinha à pergunta mais importante: o que essa pessoa precisa agora?

Cuidar não é impor um único caminho

Mulher cobre o rosto durante uma sessão de psicoterapia enquanto o profissional faz anotações.

Existe uma forma correta de se recuperar depois de uma experiência de assédio?

Não. E talvez essa seja uma das ideias mais difíceis de sustentar quando todos ao redor querem oferecer uma solução. Uma pessoa pode precisar de psicoterapia, outra pode precisar primeiro de segurança no trabalho, outra quer orientação jurídica, e há quem precise apenas de uma conversa com alguém em quem confia. Cuidado não deve funcionar como uma sequência automática de encaminhamentos, porque as necessidades dependem daquilo que aconteceu, do contexto e do momento em que a pessoa se encontra.

Quando o sofrimento é persistente, a psicoterapia pode ajudar a trabalhar medo, culpa, esquivaEsquiva Comportamento de evitar, abandonar ou contornar uma situação que provoca medo ou ansiedade. Embora possa produzir alívio imediato, a repetição da esquiva pode contribuir para a manutenção da fobia ao impedir novas experiências de enfrentamento e aprendizagem., hipervigilância e perda de confiança. A TCC (Terapia Cognitivo-ComportamentalTerapia cognitivo-comportamental Abordagem psicoterapêutica que trabalha as relações entre pensamentos, interpretações, emoções e comportamentos. No tratamento de fobias, pode incluir técnicas como exposição terapêutica e reestruturação cognitiva.) oferece recursos úteis para esses processos quando há indicação, e abordagens voltadas ao trauma também podem ser consideradas quando existe um quadro clinicamente pertinente. O EMDR (DessensibilizaçãoDessensibilização Processo terapêutico de reduzir a resposta de medo ou ansiedade através da exposição repetida ao estímulo gatilho. e Reprocessamento por Movimentos Oculares) é uma dessas possibilidades, mas isso não significa que toda pessoa que sofreu assédio precise de tratamento focado em trauma.

Quando há sintomas intensos, risco de suicídio ou transtorno mental, o acompanhamento psiquiátrico pode integrar o cuidado. Se existirem repercussões físicas, entram as medidas médicas; no trabalho, pode ser necessária intervenção organizacional; e, em questões jurídicas, orientação profissional pode ajudar a compreender alternativas. Esses caminhos podem se combinar, mas não precisam aparecer todos ao mesmo tempo nem seguir uma ordem fixa.

Na clínica, segurança, autonomia e contexto formam uma referência útil. Segurança porque ninguém consegue reorganizar a própria vida sentindo-se permanentemente ameaçado; autonomia porque o tratamento não deve reproduzir a experiência de ter escolhas retiradas; e contexto porque soluções que funcionam teoricamente podem ser inviáveis na realidade. Denunciar ou não denunciar é um exemplo: algumas pessoas sentem alívio ao formalizar o ocorrido, enquanto outras não desejam seguir esse caminho. Pressionar alguém a denunciar pode parecer uma forma de defesa e, ao mesmo tempo, retirar novamente seu poder de decidir.

A recuperação pode ter avanços e recuos. Um encontro inesperado, uma audiência, uma mensagem ou simplesmente uma lembrança podem reativar emoções, e isso não significa fracasso. O objetivo não é necessariamente esquecer o que aconteceu, mas permitir que aquilo deixe de organizar toda a vida. Em certos momentos, compreender o campo jurídico ajuda justamente a devolver escolha e ampliar a percepção de alternativas possíveis.

Quando a experiência entra no campo jurídico

Por que a mesma expressão pode significar uma coisa na conversa cotidiana e outra diante da lei?

Estátua da Justiça com balança ao lado de um martelo judicial.

No cotidiano, assédio sexual é uma expressão ampla, enquanto no Direito Penal brasileiro seu significado é mais específico. O artigo 216-A do Código Penal exige que alguém constranja outra pessoa com o intuito de obter vantagem ou favorecimento sexual, valendo-se de superioridade hierárquica ou ascendência relacionada ao emprego, cargo ou função. Essa definição exclui várias situações que socialmente podem ser chamadas de assédio, mas isso não significa que tais condutas deixem de ter relevância; elas podem receber outro enquadramento.

A importunação sexual, prevista no artigo 215-A, é uma possibilidade quando há ato libidinoso praticado sem anuência da pessoa e sem a necessidade da relação hierárquica exigida no assédio sexual. Outros casos podem envolver violência sexual, ameaça, perseguição ou ilícitos civis, trabalhistas e administrativos. No ambiente profissional, portanto, a empresa pode ter responsabilidades mesmo quando não há crime de assédio sexual, e a Lei nº 14.457/2022 reforçou medidas preventivas e de enfrentamentoEnfrentamento Conjunto de estratégias cognitivas e comportamentais utilizadas por um indivíduo para lidar com demandas internas ou externas que são percebidas como sobrecarregando seus recursos pessoais (estresse). em determinados contextos empresariais.

A prova é um tema delicado porque muitos episódios ocorrem sem testemunhas. Mensagens, e-mails, áudios, documentos e relatos podem ser relevantes, mas precisam ser analisados dentro do conjunto. Sintomas psicológicos também não funcionam como prova automática: podem demonstrar sofrimento, mas não reconstruir sozinhos a sequência dos fatos. Da mesma maneira, ausência de sofrimento intenso não significa ausência de violação.

Psicologia e Direito dialogam, mas trabalham com perguntas diferentes, e confundir essas funções não ajuda ninguém. A pessoa que deseja avaliar seus direitos precisa de orientação jurídica individualizada, porque os caminhos possíveis dependem das circunstâncias concretas de cada caso. Enquanto o Direito cuida das respostas depois do fato, permanece uma questão igualmente importante: quanto ainda podemos fazer antes?

O que ainda precisa mudar

Pessoa ergue a mão aberta em gesto de pare.

Será possível construir ambientes em que reconhecer limites seja mais fácil do que reparar sua violação?

Durante muito tempo, o enfrentamento do assédio concentrou-se na denúncia e na punição. Essas respostas continuam necessárias, mas prevenção exige olhar para aquilo que acontece antes e perguntar que comportamentos uma organização tolera, como suas lideranças exercem poder e se as pessoas realmente confiam nos canais de proteção. Esse trabalho é menos visível do que criar uma política formal, mas provavelmente é mais importante para transformar o cotidiano.

A atenção crescente aos riscos psicossociaisriscos psicossociais Fatores relacionados à organização, às condições e às relações de trabalho que podem afetar a saúde psicológica e o bem-estar do trabalhador, como sobrecarga, baixa autonomia, conflitos, insegurança, assédio, falta de reconhecimento e jornadas inadequadas. vai nessa direção, porque o assédio deixa de ser visto apenas como problema entre duas pessoas e passa a ser relacionado também ao ambiente em que surgiu. A tecnologia será outro campo importante: inteligência artificial, manipulação de imagens e circulação rápida de conteúdos criam situações que ainda desafiam legislação e instituições, embora as próprias ferramentas digitais também possam facilitar apoio, informação e registro.

A pesquisa também precisa avançar. No Brasil, ainda faltam dados mais consistentes e comparáveis entre regiões, setores e grupos, e algumas populações continuam pouco estudadas. Homens, pessoas LGBTQIA+, pessoas com deficiência e outros grupos podem viver formas particulares de vulnerabilidadeVulnerabilidade A capacidade de se abrir emocionalmente ao outro, essencial para criar vínculos autênticos em relacionamentos. que desaparecem quando utilizamos um único modelo explicativo.

Mudanças legais podem ocorrer rapidamente, enquanto mudanças culturais exigem mais tempo. É preciso rever crenças antigas sobre masculinidade, autoridade, recusa e sedução para que a prevenção não dependa apenas da reação de quem teve seus limites ultrapassados. Talvez o sinal mais importante de avanço não seja apenas o aumento de denúncias ou de punições, mas a redução das situações em que alguém precisa escolher entre proteger seus limites e proteger sua própria posição.

Reconhecer limites também é reconhecer autonomia

Imagem ilustrativa sobre empatia, respeito e reconhecimento dos limites do outro.

O que aprendemos sobre relações humanas quando levamos a sério a liberdade de dizer não?

Assédio sexual não é apenas um problema de comportamento inadequado; ele revela algo sobre a forma como lidamos com desejo, autoridade e limite. A pessoa que vive uma experiência desse tipo não reage fora de sua história, mas a partir de seus medos, vínculos, responsabilidades, recursos e possibilidades reais. É por isso que julgamentos retrospectivos costumam ser injustos, e perguntar “por que não reagiu?” pode ser muito mais fácil do que compreender o que estava em jogo naquele momento.

Na clínica, essa compreensão ajuda a reduzir culpa; nas organizações, contribui para criar respostas menos punitivas para quem denuncia; no Direito, ajuda a evitar simplificações; e, na prevenção, lembra que respeitar limites não pode depender apenas da capacidade de alguém defendê-los. Dar nome ao assédio não resolve tudo, mas cria linguagem, e linguagem permite reconhecer, conversar, pesquisar e agir.

Quando uma pessoa entende que seu desconforto merece ser escutado, alguma coisa muda. Quando uma instituição entende que silêncio pode refletir medo, outra coisa muda. E quando alguém aprende que interesse não autoriza insistência indefinida, o limite se torna mais claro. Respeito talvez comece exatamente aí: na capacidade de reconhecer que a vontade do outro não é um obstáculo a ser vencido, mas um limite a ser considerado.

Aviso profissional

Este artigo tem finalidade educativa e informativa. Seu conteúdo não permite determinar se uma situação individual constitui assédio sexual, estabelecer diagnóstico psicológico ou psiquiátrico, comprovar juridicamente um fato ou definir responsabilidade legal.

Quando houver sofrimento psicológico, risco à saúde, violência física associada ou dificuldade importante para lidar com a experiência, pode ser indicado procurar profissional habilitado para avaliação individualizada. Questões jurídicas específicas devem ser analisadas por profissional da área do Direito ou pelo órgão competente, considerando as circunstâncias concretas de cada caso.

Leitura Complementar Sugerida

Gênero, patriarcado, violência

SAFFIOTI, Heleieth Iara Bongiovani. Expressão Popular / Fundação Perseu Abramo. 2015.

Heleieth Saffioti examina as relações entre gênero, patriarcado, poder e violência contra as mulheres a partir da realidade social brasileira. A obra mostra como determinadas formas de desigualdade e dominação são produzidas e naturalizadas socialmente, articulando violência, relações de gênero e estruturas de poder.

Entre segredos, posts e notícias: A construção pública de categorias de violência sexual

ALMEIDA, Heloisa Buarque de. Papéis Selvagens. 2025.

A obra examina como categorias relacionadas à violência sexual passaram a ser construídas, disputadas e publicamente reconhecidas por meio da mídia, das universidades e do ativismo feminista. O livro resulta de pesquisa acadêmica da autora e aborda transformações contemporâneas na maneira de nomear e compreender essas experiências.

Violência dói e não é direito: a violência contra a mulher, a saúde e os direitos humanos

SCHRAIBER, Lilia Blima; D’OLIVEIRA, Ana Flávia Pires Lucas; COUTO, Marcia Thereza; FIGUEIREDO, Wagner dos Santos. Editora UNESP. 2005.

A obra aborda a violência contra a mulher como questão social, de saúde pública e de direitos humanos. Discute impactos sobre a saúde, dificuldades de reconhecimento, limites dos serviços, mudanças culturais e formas de cuidado e atenção.

Sexual Harassment of Working Women: A Case of Sex Discrimination

MACKINNON, Catharine A. Yale University Press. 1979.

Obra clássica na formação do campo de estudos sobre assédio sexual no trabalho. MacKinnon analisa o assédio não apenas como comportamento individual, mas como fenômeno relacionado à desigualdade de gênero, ao poder econômico e profissional e à discriminação sexual.

Referências bibliográficas

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