Pular para o conteúdo

Aquela sensação de que suas habilidades estão sendo desperdiçadas em tarefas irrelevantes, gerando um vazio profundo e um cansaço que não passa nem com um fim de semana de descanso? Muitas vezes, acreditamos que o sofrimento no trabalho vem apenas do excesso de funções, mas o tédio crônico e a falta de propósito podem ser tão devastadores quanto a sobrecarga. Se você se sente invisível ou subutilizado na sua jornada profissional, saiba que isso tem nome e não é preguiça: trata-se do fenômeno conhecido como Boreout.

Embora o termo “Boreout” seja amplamente utilizado na psicologiaPsicologia Estudo científico da mente e do comportamento humano, focando em processos mentais, emoções e interações sociais. organizacional, ele ainda não figura como uma doença isolada nos manuais médicos. No DSM-5, que é o guia de transtornos mentais, os sintomasSintomas Sensações e percepções relatadas pelo indivíduo que expressam o seu sofrimento interno, mas que não podem ser medidas diretamente pelo observador. ex: Medo relacionados a esse quadro costumam ser classificados dentro dos Transtornos de AdaptaçãoTranstornos de adaptação Reações emocionais ou comportamentais excessivas e prejudiciais que surgem em resposta a um estressor identificável na vida, como divórcio ou perda de emprego. ou até em episódios depressivos, dependendo da gravidade. Já na CID-11, a classificação internacional de doenças da Organização Mundial da SaúdeOrganização Mundial da Saúde A Organização Mundial da Saúde é a autoridade internacional responsável por direcionar e coordenar a saúde global dentro do sistema das Nações Unidas, sendo a instituição que estabelece padrões globais de saúde e publica a Classificação Internacional de Doenças, que inclui os critérios para o diagnóstico de transtornos mentais., o conceito mais próximo é o de BurnoutBurnout Também conhecida como Síndrome do Esgotamento Profissional, é um estado de colapso físico e mental resultante de um estresse crônico e prolongado no ambiente de trabalho. Diferente do cansaço comum, o Burnout é caracterizado por uma tríade específica: a exaustão emocional profunda, o distanciamento cínico ou frio em relação às tarefas e colegas (despersonalização) e uma sensação persistente de ineficácia ou baixa realização profissional., que foi oficializado como um fenômeno ocupacional. No entanto, a ciência moderna entende que ambos compartilham o mesmo teto: o estresse crônico no ambiente de trabalho, diferenciando-se apenas pelo gatilho, que no caso do Boreout é a inanição mentalInanição mental No contexto do texto, refere-se ao estado de esvaziamento ou falta de nutrientes psicológicos e desafios necessários para o bem-estar mental. e a falta de estímulo.

Para identificar se alguém está passando por esse quadro, é necessário observar a tríade que compõe o fenômeno: o tédio monótono, a falta de desafio e o desinteresse profundo pelas tarefas. Diferente do cansaço comum, o diagnóstico do Boreout leva em conta uma situação persistente onde o trabalhador sente que sua presença é irrelevante. O profissional de saúde avaliará se o indivíduo está em um estado de subexigência, ou seja, quando as competências da pessoa são muito superiores ao que o cargo exige, gerando uma frustração existencial que consome a energia vital de forma silenciosa e contínua.

Os sinais do Boreout são insidiosos e podem ser confundidos com apatia. O portador frequentemente apresenta fadiga extrema logo no início do dia, irritabilidade sem motivo aparente e uma sensação de vazio. Fisicamente, podem surgir dores de cabeça, problemas digestivos e uma queda acentuada na imunidade. Psicologicamente, o indivíduo desenvolve estratégias de “fingimento”, tentando parecer ocupado para evitar críticas, o que gera um sentimento de culpa e baixa autoestimaAutoestima A autoestima é a avaliação subjetiva que um indivíduo faz de si mesmo, englobando crenças sobre sua própria competência, valor e aparência. Na esfera da sexualidade, a autoestima atua como um filtro fundamental: uma percepção positiva de si facilita a entrega ao prazer e a comunicação de desejos, enquanto uma autoestima fragilizada pode gerar sentimentos de inadequação, medo da rejeição e bloqueios na resposta sexual. É um conceito multidimensional que envolve tanto a autoimagem física quanto o valor interno atribuído à própria identidade.. Com o tempo, essa desconexão com o trabalho pode evoluir para crises de ansiedade e um isolamento social preocupante.

O Boreout não escolhe crachá, mas as estatísticas mostram uma incidência significativa em setores administrativos e cargos públicos com funções muito burocráticas. Quanto ao gênero, os estudos apontam um equilíbrio, embora as mulheres frequentemente relatem o problema por estarem, por vezes, alocadas em funções abaixo de sua qualificação técnica devido a barreiras estruturais. A faixa etária mais atingida compreende jovens entre 25 e 35 anos, que entram no mercado com grandes expectativas de propósito, e profissionais acima dos 50 anos, que podem se sentir deixados de lado por processos de modernização tecnológica.

O tratamento adequado exige uma abordagem multidisciplinar para reorganizar a saúde mentalSaúde Mental Mais do que a ausência de transtornos, é a capacidade de viver a vida de forma plena e lidar com os seus desafios. e a vida profissional. O psicólogo é a figura central, utilizando geralmente a Terapia Cognitivo-Comportamental para ressignificarRessignificar Processo psicológico de atribuir um novo significado a um evento traumático ou doloroso, permitindo uma visão mais saudável e menos paralisante sobre o ocorrido. a relação com o trabalho e reconstruir a autoestima. Em casos onde a apatia evoluiu para uma depressãoDepressão Transtorno mental comum, mas grave, caracterizado por uma tristeza persistente e uma perda de interesse em atividades que antes eram prazerosas. Diferente de uma tristeza passageira, a depressão afeta a forma como a pessoa sente, pensa e lida com atividades diárias, como dormir, comer ou trabalhar. secundária, o psiquiatra torna-se indispensável para a prescrição de medicamentos que auxiliem na regulação química do cérebro. Além disso, mentores de carreira podem ajudar o indivíduo a traçar novas rotas profissionais ou a negociar mudanças de função dentro da própria empresa.

O prognóstico para quem busca ajuda é extremamente positivo. Ao contrário do que muitos pensam, admitir o sofrimento pelo tédio não é um sinal de fraqueza, mas o primeiro passo para retomar as rédeas da própria vida. A recuperação envolve redescobrir talentos esquecidos e estabelecer limites saudáveis entre o “ser” e o “fazer”. Buscar tratamento é investir na possibilidade de acordar novamente com brilho nos olhos, entendendo que sua mente é potente demais para ser aprisionada pela monotonia. A mudança é possível e o alívio emocional é libertador.

A vida não é uma linha de montagem e sua dignidade não deve ser medida pela quantidade de tarefas vazias que você executa. O Boreout nos ensina que o ser humano precisa de sentido tanto quanto precisa de repouso. Quando nos silenciamos diante do desânimo, deixamos de habitar nossa própria história. É essencial questionar se estamos apenas ocupando um espaço físico ou se estamos, de fato, presentes no que realizamos. Diante dessa realidade, fica o questionamento: você está vivendo para trabalhar ou apenas esperando o relógio bater para começar a viver?

Texto relacionado: Síndrome de Burnout